Wednesday, January 24, 2007

Até onde vai o fanatismo (ou Religiosificação)

O escândalo envolvendo a família Hernandes, fundadores da Igreja Renascer em Cristo, reacendeu velhas polêmicas envolvendo o meio religioso. De um lado, os seguidores realmente acreditam que a culpa é da "imprensa demoníaca", que está acusando, julgando e condenando injustamente o "apóstolo" e sua esposa. Do outro, a cada dia surgem novas evidências de que o casal realmente está envolvido em diversos crimes fiscais como lavagem de dinheiro, evasão de divisas e "cash smuggling", termo legal norte-americano para contrabando de dinheiro.

O fato: o apostolo Stevan Hernandes e sua esposa, a bispa Sônia Hernandes, foram presos ao tentar entrar nos Estados Unidos com US$ 56 mil dólares, sendo que eles haviam declarado apenas US$ 10 mil ao fisco daquele país. Ao serem revistados, os valores em espécie foram achados dentro de roupas, malas e até mesmo dentro de uma bíblia em posse dos dois "religiosos".

Aqui no Brasil, ficamos sabendo de duas versões: a do advogado da família, Luiz Flávio Borges D'Urso, afirma categoricamente que tudo não passou de um mal entendido e que os dois pastores passaram por um "constrangimento injusto". Do outro, os seguidos relatórios emitidos pela justiça norte-americana que chegaram ao Brasil via embaixada contam que tanto apóstolo Stevam como a bispa Sônia mentiram ao declarar com quanto dinheiro em espécie portavam ao entrar nos EUA, crime passível de cadeia.

Deixando a discussão legal de lado, vamos analisar a questão religiosa. Pseudo-apóstolos, bispos mal intencionados, pais e mãos de santo enganadores, líderes religiosos que não põe na prática aquilo que pregam, etc., existem aos montes e, a cada dia que passa, novas denúncias chegam aos ouvidos do brasileiro através da imprensa.

Apesar disso, a religião é cada vez mais procurada pelo nosso povo. Na imensa maioria das vezes, o brasileiro simplesmente fecha os olhos e ouvidos para as denúncias que envolvem a sua crença e decoram os pormenores daquelas que são dirigidas contra a religiãoi alheia (sim, pimenta no olho dos outros continua sendo refresco).

A base desse ideário, de que líder religioso é um "ungido" pelo Senhor e não pode errar é a mesma base de onde saem os homens bomba palestinos: o fanatismo.

Com tantas misérias em sua vida, o brasileiro, esperançoso até o limite da razão, tem o costume de se apegar exageradamente a uma ideologia. Tendo uma vida difícil do ponto de vista financeiro e até mesmo cultural, a religião é um último baluarte onde o homem pode se agarrar para conseguir dar um motivo para a sua existência.

A fé, sendo um sentimento abstrato, exclui a lógica e a racionalidade. O homem de fé não precisa de provas para acreditar na ideologia que segue. Muito pelo contrário, os religiosos tendem a acreditar que toda forma de pensamento analítico-científico, contrário à sua crença, vem do demônio ou que, um dia, a ciência vai achar as mesmas respostas que a religião.

Dessa forma, por mais que existam provas cabais do envolvimento da família Hernandes com lavagem de dinheiro, falsidade ideológica, cash smuggling, o que seja, a acusação vai ser imediatamente descartada pelos féis.

O fanatismo está no cerne dessa discussão. Ninguém nega que esse "torpor religioso", que põe em uma espécie de transe o pensamento racional dos fiéis, pode ser visto em toda e qualquer forma de religiosidade, principalmente aquelas baseadas nas culturas judaicas, cristã e muçulmana.

O grande problema é que fanáticos dão a vida pela causa, seja ela qual for. Da mesma forma que um árabe vai detonar um artefato explosivo amarrado ao próprio corpo, o fiél vai dar todo o dinheiro de possui, defender seus líderes e até mesmo brigar em decorrência de atritos religiosos.

Deus está acima das religiões. Ele se manifestou em todos os tempos, em todas as culturas. Veio até os judeus como o Messias, chamado de Jesus pelos cristãos. Foi até os hinduístas para falar com Arjuna, no Bhagavad Gita, falou com Sidarta Gautama, para que o budismo pudesse nascer no oriente. Se manifestou para Maomé, que fundou o islamismo.

Da mesma forma, os picaretas estão em toda as religiões. Ladrões, enganadores e falsários que se arvoram de "emissários" e "apóstolos" de Deus para enriquecer em termos de dinheiro e poder. E o pior de tudo isso é que esses sacanas sempre são pessoas com boa desenvoltura nos palcos, o que atrai milhares e milhares de fiéis que vão depositar as suas esperanças (e carteiras) em algo no qual acreditam ser certo,

Um fantástico, o fiél, não quer saber se a sua crença pode estar prejudicando milhares de outras pessoas, se o líder religioso que ele acredita ser um emissário divino não passa de um safado de marca maior: ele quer apenas ter a sua sede pelo sentimento religioso saciada. Da mesma forma que temos o conceito de "coisificação" vindo de Marcuse, Adorno e Luckas, onde o ser humano se transforma naquilo que compra, podemos cunhar o termo "religiosificação", onde o homem acaba virando aquilo no que ele acredita.

Quem passou pelo processo de "religiosificação" pode ser facilmente reconhecido por alguns pontos em comum:
1- "Eugenia" - sua crença é a única certa e apenas ela dá o direito a salvação. A imensa maioria dos outros religiosos somente poderá desfrutar do "céu" se forem convertidos, seja pela conversa ou pela força. Não existem meios termos, apenas dois lados muito bem distintos: o bom, da luz, da direita; ou o mal, das trevas, da esquerda. Detalhe: os "religiosificados" são da direita, enquanto o resto do mundo é do mal, portanto, passível dos castigos da "ira divina";
2- Tipificação - os "religiosificados" tendem a se aproximar em grupos, lançar gírias e formas de cumprimento que irão destacá-los em meio à multidão. Não importa se isso vai ferir a liberdade de outras pessoas, afinal, se "Deus está com eles, porque a lei dos homens deve ser seguida"?;
3- Combate ao Mal - os fiéis devem aprender, dentro da religião, que converter o maior número possível de pessoas e combater o mal é visto com méritos pelo Senhor, ainda que isso signifique incendiar um terreiro de Umbanda, apedrejar um centro espírita, vandalizar uma igreja, chutar a santa ou destruir qualquer templo evangélico. Tudo é permitido dentro da guerra espiritual que é travada dia-a-dia entre deus e o diabo;
4- Ações efetivas contra o mal - Caso não exista a possibilidade de conversão, o "religiosificado" deve se afastar o máximo possível do convívio daquela pessoa, mesmo que seja seu pai, mãe, irmão, avô, primos. Amigos, então, sem pensar duas vezes.

Basicamente são esses os quatro sintomas da religiosificação. Quando o homem deixa de ser humano par se tornar um religioso, parece que ele, obrigatoriamente, precisa deixar de lado o cérebro. O fanatismo não está longe dos brasileiros, é só ver a reação dos fiéis da renascer ou de qualquer outra religião quando os líderes da mesma são atacados. Mesmo que existam provas inapeláveis, o fiél vai se agarrar inexplicavelmente a um líder corrupto e charlatão, como se isso fosse salvar a sua alma do fogo do inferno.

Claro, estou generalizando, pois acredito que exista uma parcela considerável de religosos que não se deixam "religiosificar". São pessoas que acreditam em Deus, seja qual for a sua face (Deus, Alah, Jeová, Brahma, Vazio, Olorum, Nzambi), seguem seus mandamentos: "amarás ao teu Deus sobre toda as coisas e ao próximo como a ti mesmo" e, principalmente, não esquecem o "telencéfalo altamente desenvolvido" em casa quando saem para fazer seus louvores.

Contudo, a massa de "religiosificados" tende a aumentar cada vez mais, visto que educação, emprego e lazer são substituídos por uma "ida ao templo" e, se depender dos nossos políticos (com uma bancada religiosa cada vez maior), isso não vai mudar tão cedo.

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